Desigualdade: Como (sobre)vive uma família com um salário mínimo?

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Imagem: BBC Brasil

A realidade da desigualdade no Brasil de quem vice com um salário mínimo

Como é possível fazer um salário mínimo durar o mês inteiro como a única renda de uma família? A realidade de grande parte da população brasileira foi tema da  reportagem da BBC Brasil , que conta a história de três famílias que, com muitas dificuldades, sobrevivem às condições de pobreza às quais se encontram.

Escolhas diárias são feitas por famílias que vivem com um salario mínimo, de R$937, na cidade de São Paulo. Para ter alimento na mesa, é preciso optar entre comprar remédio ou comida. A higiene é deixada de lado para que se possa ter um pedaço a mais de carne na mesa e as goteiras são aguentadas porque, se for gasto dinheiro para consertar o telhado, faltará para a alimentação das crianças. Há ainda quem ande quilômetros para conseguir alimentos mais baratos para a produção de quentinhas e, assim, obter lucro. Os chefes dessas famílias contam como fazem pra sobreviver o mês inteiro com esse valor e evitar morar na rua.

A primeira família é composta por um casal, Renata e Reginaldo, e seus três filhos, de oito, cinco edois anos de idade, que vivem na favela de Paraisópolis, segunda maior comunidade de São Paulo. Às vezes, precisam pedir dinheiro emprestado para passar o mês e, todos os sábados, Renata vai à feira para reaproveitar alimentos descartados pelos feirantes, que consistem em verduras e legumes parcialmente estragados. Eles residem em um imóvel alugado por R$250, valor que toma mais de um quarto do salário de auxiliar de limpeza, que os sustenta. Em dias de chuva, eles não dormem com medo de o barraco desabar. O sonho do casal é ter uma casa própria.

Em uma ocupação em São Paulo, local que tem como objetivo aliviar o custo do aluguel e mostrar ao poder público que há espaços valiosos e ociosos na cidade, vive o pedreiro Carlos Augusto. Cansado de viver no limite do orçamento, decidiu erguer um barraco com teto de lona, colocar um colchão dentro e morar lá. Porém, a esposa e filhos não podem ficar com Carlos. O filho mais velho do casal sofre de epilepsia e atraso mental, razão que fez a mãe largar o emprego como doméstica para cuidar dele e alugar uma casa de dois cômodos no valor de R$400, para que o rapaz tenha um mínimo de conforto. A única renda segura com a qual a família pode contar é o beneficio que recebem devido à deficiência do filho. Como complemento, o pedreiro às vezes consegue bicos, ganhando R$100 por dia. Carlos não sai da ocupação, pois, em sua visão, ali seria um local ideal para a construção de moradias populares.

A terceira família mora em um cortiço dividido com mais três outras, no centro de São Paulo. É composta pela mãe, Renata Moura, e seus sete filhos. Ela já chegou a morar na rua com dois filhos. Para sobreviver, vende marmitex na região da cracolândia. O aluguel de sua moradia custaria R$400 mensais, porém, por conhecer a dona do imóvel, ela consegue uma flexibilidade. Renata paga de acordo com o desempenho de suas vendas – num dia bom chega a vender 50 marmitex por R$15 cada.

Os pais de família que recebem apenas um salário mínimo costumam ter algumas características em comum, como a baixa escolaridade e a infância marcada pela pobreza e pela necessidade de trabalhar. Uma história que tentam evitar que se repita com seus filhos, por mais que nem sempre seja possível obter sucesso nessa tarefa. A família de Paraisópolis deseja que os filhos estudem e obtenham sucesso profissional, entretanto, o mais velho, com oito anos de idade, ainda não começou a 1ª série. O motivo é que sua certidão de nascimento foi danificada e o casal ainda não conseguiu renová-la. Isso também fez com que perdessem o benefício Bolsa Família. Já a comerciante de marmitas, relatou que não conseguiu evitar que os filhos deixassem de estudar para ajuda-la no trabalho. Essa realidade impede a mudança de classe social.

Segundo especialistas, para que uma família de quatro pessoas tenha condições básicas para viver, o salário mínimo brasileiro deveria ser de R$3.810,36, valor quatro vezes maior que o atual. O valor de R$937 seria o mínimo ideal para sobreviver em novembro de 1999, logo, as famílias da reportagem possuem um atraso de quase 20 anos no orçamento.

*Por Paula Moraes para o Cultura e Saúde

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