Você sabe a diferença entre uma notícia legítima e as Fake News?

 

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Alice Wakai para Somos 99

Uma das primeiras coisas que aprendi na faculdade de jornalismo foi a estrutura de uma notícia. Apesar de cada veículo de comunicação adotar seus próprios critérios (chamados no jornalismo de “valores-notícia”) para definir quais fatos merecem ser noticiados, é importante entender que existem elementos-chave que caracterizam e distinguem uma notícia de outros tipos de texto. Estes elementos podem ser divididos basicamente em: título, lide (ou lead, em inglês) e o corpo do texto (apuração). Vamos analisar de forma breve cada um deles:

Título:

O título é a “chamada” para a notícia. O título é determinante para capturar a audiência, além de ser responsável por influenciá-la. Por isso a maioria dos editores preferem títulos que chamam a atenção. Alguns vão até mesmo na linha do “caça-clique”, na qual “vale tudo” para fisgar o leitor: adjetivos tendenciosos, expressões apelativas ou sensacionalistas.

No caso da mídia impressa, o desafio de produzir um bom título aumenta, visto que existe limitação de espaço. Isto acaba exigindo habilidade do jornalista para condensar a ideia central do texto em poucas palavras, além de demandar um repertório de vocabulário vasto para escolher os verbos mais adequados. O verbo é o “destaque determinante” do título e geralmente reflete a posição editorial de uma empresa jornalística.

Exemplos de títulos:

Folha: Aprovação de Doria cai nove pontos, e maioria rejeita seu plano presidencial

Estadão: Pesquisa mostra que aprovação a Doria cai para 32%

Último segundo (IG): Aprovação de Doria registra queda de nove pontos, diz Datafolha

Lide:

O lide é conhecido como o “primeiro parágrafo” da notícia que “ordena” as informações relevantes, respondendo sempre (ou quase sempre) às perguntas: quem, o quê, quando, onde e porque. O lide nasceu no século 19 nos EUA, quando jornalistas cobriam a Guerra Civil americana e precisavam transmitir notícias de forma mais objetiva. Assim, os vários jornalistas que disputavam espaço na transmissão de notícias via telégrafo, enviavam seus textos divididos por parágrafos, priorizando as informações mais importantes. Vamos ver alguns exemplos de lide das notícias que citamos acima:

Folha:

Na primeira pesquisa do Datafolha após a intensificação de sua articulação visando a candidatura presidencial do PSDB em 2018 (quando), o prefeito de São Paulo, João Doria (quem), despencou quase dez pontos percentuais na aprovação de sua administração (o que).

Estadão:

A aprovação ao prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB) (quem), perdeu força (o que), aponta o primeiro levantamento do Instituto Datafolha realizado depois que ele intensificou o movimento para possível candidatura a presidente em 2018. A pesquisa foi divulgada pelo jornal Folha de S. Paulo neste domingo, 8. (quando)

IG:

A avaliação da administração do prefeito de São Paulo, João Doria (quem), registrou queda de nove pontos em outubro (o que). Segundo dados do Datafolha, o governo do tucano é considerado bom ou ótimo por 32% dos paulistanos. Outros 40% consideraram a gestão regular e 26%, ruim ou péssima. Na pesquisa anterior, realizada no início de junho, seu mandato (quando) era considerado bom ou ótimo por 41% dos consultados. Para 34%, era regular, e para 22%, ruim ou péssimo.

Corpo do texto (apuração)

O corpo do texto é onde se desenvolve a apuração da notícia. Esse processo envolve a verificação e a checagem das informações em estado bruto (dados, nomes, números, etc) para depois serem organizadas numa narrativa própria para o público final. A apuração é feita por meio de documentos, fontes e pessoas que fornecem as informações. Como é praticamente impossível uma notícia ser 100% isenta, geralmente adota-se alguns critérios de objetividade como a quantidade e a qualidade de fontes e dados. Uma notícia ideal seria aquela que mostra “os diversos lados” de uma história, os pontos positivos e negativos, as vantagens e desvantagens, as pessoas “a favor” e as pessoas “contra” um determinado tema. Desta forma, mesmo que uma determinada opinião seja dominante no texto é possível discernir que existem outras linhas de pensamento que contrapõem a ideia predominante.

Notícia é um produto jornalístico, Fake News não

É essencial lembrar que uma notícia é um produto como qualquer outro e que é vendido por um determinado grupo de comunicação como jornais, TVs, rádios e sites. Esses grupos são empresas privadas que visam fins lucrativos e têm seus próprios posicionamentos políticos e econômicos. O “produto-notícia” está sofrendo mudanças radicais em sua forma de distribuição por causa da internet e das redes sociais, o que é um processo absolutamente positivo e democratiza o acesso à informação de modo geral. No entanto, neste cenário, uma única coisa não deveria mudar: a notícia, para todos os efeitos, deve continuar prestando o serviço de informar fatos de interesse público. Quando isso não acontece a sua essência é corrompida e ela deixa de ser uma notícia.

Fake News: o que são e quais seus impactos na nossa vida?

A democratização do acesso à informação sem dúvida é uma conquista histórica para o nosso país, principalmente quando analisamos o quanto o militarismo sufocou a liberdade de expressão dos brasileiros ou quando analisamos o quanto o modelo: “emissor” -> mensagem -> receptor” está ultrapassado. Vivemos tempos, nos quais, todos podem falar para todos. Este é um caminho benéfico e irreversível.

Por outro lado, o que temos visto nos últimos tempos é que a democracia é facilmente confundida com “passe livre” para disseminar o discurso de ódio, no qual não há espaço para o debate saudável de ideias. Existe apenas desinformação de grupos determinados que querem fazer prevalecer sua própria crença ou opinião. Além das fake news baseadas em interesses políticos, obviamente, esses grupos radicais criam ambientes perfeitos para nascerem as “fake news”. As fake news são notícias falsas, produzidas propositalmente para obter ganhos financeiros ou políticas. Entre suas características mais marcantes estão: as manchetes sensacionalistas e exageradas e sua alta capacidade de disseminação nas redes sociais e na internet.

Imagem: Bob Al-Greene, Mashable

Apesar de as Fake News serem um fenômeno antigo (existem desde a Roma Antiga), elas ganharam destaque com as últimas eleições dos EUA quando circularam boatos como “Wikileaks confirma que Clinton vendeu armas para o Estado Islâmico”, “Papa Francisco choca o mundo e apoia Donald Trump” ou Coreia do Norte é campeã da Copa 2014.

Estima-se que na web, 12 milhões de pessoas difundam notícias falsas sobre política no Brasil, de acordo com levantamento de um grupo de pesquisas em Políticas Públicas para o Acesso à Informação. Os dados são realmente preocupantes, considerando a proximidade que vivemos com as eleições brasileiras de 2018. Aí fica a pergunta: como prevenir que as Fake News influenciem de forma negativa o cenário eleitoral? Aliado a isso, já existem movimentos jovens crescentes favoráveis à candidatura do Deputado Jair Bolsonaro, conhecido por seus comentários racistas, sexistas e homofóbicos. Pesquisas eleitorais apontam que o deputado tem uma intenção de voto que oscila entre 18,4% e 26%, se consolidando como segundo candidato favorito à Presidência do Brasil.

Não “durma no ponto”

Com o crescimento das Fake News é preciso fazer a sua parte: não se deixe enganar pelas notícias falsas. Não seja espectador passivo nas eleições de 2018. Fique atento, denuncie notícias ou informações falsas, perca tempo debatendo a importância de coibir as Fake News. Contribua para que o país não se torne um novo EUA e eleja um “novo Trump”.

Saiba distinguir uma notícia legítima de uma notícia fake, conheça as fontes das notícias que você consome ou divulga. Faça perguntas como: que veículo está noticiando este “fato”? Qual a origem deste “fato”? Quais fontes o veículo usou no texto? Existe um trabalho de jornalismo por trás desta notícia? Existem autoridades, órgãos, documentos, fotos, áudios ou outros materiais que fundamentam esta notícia?

Seja um cidadão consciente. Se você quer mudar a estrutura política comece uma mudança em você mesmo. O Brasil tem solução, você precisa acreditar e fazer a sua parte.

Anexos

Curiosidades sobre Fake News do passado:

  • O político e general romano Marco Antonio cometeu suicídio motivado por notícias falsas. Haviam falsamente dito a Marco Antonio que sua mulher, a Cleopatra também havia cometido suicídio.
  • No século VIII a Doação de Constantino foi uma história forjada, em que supostamente Constantino havia transferido sua autoridade sobre Roma e a parte oeste do Império Romano para o Papa.
  • Poucos anos antes da Revolução Francesa, vários panfletos eram espalhados em Paris com notícias, muitas vezes contraditórias entre si, sobre o estado de falência do governo. Eventualmente, com vazamento de informações do governo, informações reais sobre o estado financeiro do pais foram a público.
  • Benjamin Franklin escreveu notícias falsas sobre Índios assassinos que supostamente trabalhavam para o Rei George III, com o intuito de influenciar a opinião pública a favor da Revolução Americana.
  • Em 1835 o jornal The New York Sun publicou notícias falsas usando o nome de um astrônomo real e um colega inventado sobre a descoberta de vida na lua. O propósito das notícias foi aumentar as vendas do jornal. No mês seguinte o jornal admitiu que os artigos eram apenas boatos.

Fonte: Wikippedia

Características comuns das Fake News:

Todos os principais sites que se encaixam no conceito de “pós-verdade” no Brasil possuem algumas características em comum:

  1. Foram registrados com domínio .com ou .org (sem o .br no final), o que dificulta a identificação de seus responsáveis com a mesma transparência que os domínios registados no Brasil.
  2. Não possuem qualquer página identificando seus administradores, corpo editorial ou jornalistas. Quando existe, a página ‘Quem Somos’ não diz nada que permita identificar as pessoas responsáveis pelo site e seu conteúdo.
  3. As “notícias” não são assinadas.
  4. As “notícias” são cheias de opiniões — cujos autores também não são identificados — e discursos de ódio (haters).
  5. Intensiva publicação de novas “notícias” a cada poucos minutos ou horas.
  6. Possuem nomes parecidos com os de outros sites jornalísticos ou blogs autorais já bastante difundidos.
  7. Seus layouts deliberadamente poluídos e confusos fazem-lhes parecer grandes sites de notícias, o que lhes confere credibilidade para usuários mais leigos.
  8. São repletas de propagandas (ads do Google), o que significa que a cada nova visualização o dono do site recebe alguns centavos (estamos falando de páginas cujos conteúdos são compartilhados dezenas ou centenas de milhares de vezes por dia no Facebook).

Produtores

Os produtores de “pós-verdades” mais compartilhados nas timelines dos brasileiros são os seguintes:

* Ceticismo Político: http://www.ceticismopolitico.com/

* Correio do Poder: http://www.correiodopoder.com/

* Crítica Política: http://www.criticapolitica.org/

* Diário do Brasil: http://www.diariodobrasil.org/

* Folha do Povo: http://www.folhadopovo.com/

* Folha Política: http://www.folhapolitica.org/

* Gazeta Social: http://www.gazetasocial.com/

* Implicante: http://www.implicante.org/

* JornaLivre: https://jornalivre.com/

* Pensa Brasil: https://pensabrasil.com/

Fonte: https://www.issoenoticia.com.br/artigo/projeto-da-usp-lista-10-maiores-sites-de-falsas-noticias-no-brasil

Ferramentas que ajudam a identificar Fake News:

http://piaui.folha.uol.com.br/lupa/

http://www.factcheck.org/

https://aosfatos.org/

https://apublica.org/

Links de referência:

Alice Wakai é bacharel em jornalismo pela Unesp e jornalista no iMasters e E-Commerce Brasil.

 

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